sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Falta um professor


Colégio Estadual Presidente Roosevelt (do meu tempo)
Eu sempre achei que faltava uma matéria na grade curricular do ensino secundário. Vejam vocês: o sinal bate e entra na sala o professor de matemática e dá-lhe de trigonometria, geometria, estatística, sistema cartesiano e sei lá mais o quê. Acabada a aula, a classe mal tem tempo de respirar e vem o professor de biologia com suas células, suas briófitas e quejandos. Aí entra em campo o professor de inglês, atormentando os pobres alunos com a diferença entre who e whom, entre lie e lay, entre although e despite.
Na minha opinião, deveria haver um professor de – não riam – vida, alguém com cultura suficiente para falar ora de história, ora de literatura; às vezes sobre Sartre, às vezes sobre Platão; de repente o assunto seria o conflito no Oriente Médio, que poderia descambar para um debate sobre política nacional.
Eu tive um mestre assim. Pinheiro, professor de filosofia do Roosevelt. Raramente ele conseguia dar a aula que havia planejado para nossa classe. Lembro-me particularmente de uma noite (o curso era noturno) em que a fichinha em que ele trazia suas anotações sobre Schopenhauer, filósofo amargo e pessimista, foi logo abandonada e o resto da aula foi sobre o suicídio. Eram aulas perturbadoras, que mexiam com a cabeça da gente. Era comum, believe it or not, que eu e um amigo, o Urias, que eu não vejo há décadas e de quem ainda sinto saudade, saíamos do Colégio, na rua São Joaquim, e caminhávamos (!) até Pinheiros, onde eu morava. Íamos conversando ao longo da Av. Liberdade, entrávamos no centro da cidade, descíamos as escadas do Viaduto do Chá, atravessávamos o túnel 9 de Julho, seguíamos até av. Brasil. De lá, tocávamos pela Rua Pinheiros e, finalmente, exaustos, chegávamos na minha casa, de madrugada. Minha mãe nos dava uma sonora bronca, mas valia a pena.
Schopenhauer

O Porto Seguro quase teve um professor assim. A União Cultural Brasil-Estados Unidos, tradicional escola de inglês fundada em São Paulo há mais de 70 anos, proporcionava todo ano uma série de palestras para professores de inglês durante as férias de janeiro ou fevereiro. Num desses seminários, conheci um americano (esqueci seu nome), que deu um curso sobre cultura e história dos Estados Unidos. Foram aulas fascinantes.
Por coincidência, o Porto naquela época estava exatamente precisando de um professor de inglês. O americano me contou que estava pensando em morar por alguns anos no Brasil, trabalhando como professor. Na mesma hora fui à Secretaria da Escola telefonar para o Colégio (não havia celular naquela época).
Primeiro prédio do Porto Seguro (ainda no séc. XIX
                                               
Primeiro prédio do Colégio Visconde de Porto seguro
- Ele tem registro de professor?  - perguntou a vetusta Secretária, guardiã da burocracia escolar, tão velhinha que talvez tenha sido contemporânea de D. Pedro II, que visitou o Colégio em 1886.
- Não, não tem, - respondi. Aliás, nem professor ele é. Ele, na verdade, é sociólogo.
- Então não pode. Para dar aula aqui, só com registro de professor. Clic. Delicadamente, mas com firmeza, desligou o telefone na minha cara.
E com isso, a Escola perdeu uma oportunidade de ouro de ter em seus quadros alguém que sabia mais inglês, mais história e mais ciências sociais do que todos nós no Departamento de Inglês. Certamente, os professores brasileiros, devidamente registrados, com Carteira Profissional em dia etc. etc. teríamos muito a aprender com o rapaz. Ele teria sido, tenho certeza, nosso mentor. Sem falar de quanto os alunos iriam aprender com suas aulas.


2 comentários:

  1. Pois é, eu nunca tive um professor desses. Pena!!!

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  2. Gostei... tive um professor parecido com esse que você descreveu o nome dele era Sr. Wilson - nós o chamávamos de "mestre" näo só
    de Português....

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